Mundo novo e autoconhecimento: os líderes instintivos (artigo 2)

Mundo novo e autoconhecimento: os líderes instintivos (artigo 2)

 

<< artigo de Isabel Soares>> consultora parceira da Evolução Humana Consultoria >> 

Diante das inúmeras transformações pelas quais estamos passando rumo ao mundo novo, dedicar um tempo ao equilíbrio emocional é essencial.

Sem responder à pergunta “quem sou eu? ” (olhar para dentro), não conseguiremos entender quais são as nossas forças interiores e limitações (pontos de desenvolvimento) da nossa personalidade. 

No processo de autoconhecimento, o primeiro passo é compreendermos que a nossa personalidade é uma estratégia de sobrevivência escolhida por nós – na primeira infância – para lidar com o mundo a nossa volta. 

O segundo passo é reconhecer que nós não somos a nossa personalidade. Parece uma tarefa fácil, mas não é. Nos apegamos a personalidade que escolhemos para nos mostrarmos para o mundo e acreditamos que ela nos define como seres humanos. 

Quantas vezes você não escutou alguém falando com orgulho: “eu tenho uma personalidade forte e esta é minha essência e é assim que eu sou”. Veremos que essa crença é um ledo engano e pode ser quebrada.

Todos nós temos três centros de inteligência (instintivo, emocional e mental), mas nos desenvolvemos primordialmente em um deles. 

As organizações utilizam várias ferramentas de autoconhecimento para mapear a personalidade de seus líderes e traçar um plano de desenvolvimento para eles, como o DISC (avaliação comportamental) ou MBTI (instrumento que identifica preferências pessoais).

Para lidar com o tema do autodesenvolvimento na liderança utilizo o Eneagrama, uma sabedoria milenar que nos apresenta um mapa de desenvolvimento humano que descreve nove tipos de personalidades divididos em três tríades: tríade instintiva (tipos 8, 9 e 1)tríade emocional (tipos 2, 3 e 4) e a tríade mental (tipos 5, 6 e 7)

Apesar de o nosso tipo de personalidade ser o mesmo para a vida toda, através do Eneagrama podemos expandir o nível de consciência, potencializando forças e interrompendo mecanismos nocivos e automáticos que operam em nós de forma inconsciente. 

Venho utilizando o Eneagrama há anos nas organizações (em workshops e individualmente em processos de coaching executivo). Posso constatar a diferença que ele faz para os líderes, assim como fez em todas as áreas da minha vida. Meu trabalho é ajudá-los a acessar sua motivação central e, a partir daí, coordenar o pensar, sentir e agir em alinhamento com os objetivos da organização.

Neste artigo vou examinar os três tipos de personalidade da tríade instintiva. Como falei anteriormente, a emoção subjacente desta tríade é a raiva. Como vocês verão, cada um dos três tipos irá lhe dar com a raiva de forma completamente diferente. Apesar disso, a tríade terá algo em comum para os três tipos que, no caso dos tipos instintivos, está relacionada ao controle de pessoas, ambientes e busca por autonomia.

O LÍDER TIPO OITO: O PODER

O indivíduo com este tipo de personalidade, dificilmente passa desapercebido em um ambiente, seu valor central é a justiça como forma de buscar a “verdade”. Em algum momento da vida, a criança tipo oito sentiu-se traída, portanto criou uma carcaça (inconsciente) que esconde a sua sensibilidade (seu maior tesouro) e partiu para o mundo negando tudo e a todos que possam trazer contato com suas emoções e vulnerabilidades.

Trazendo para a liderança, os tipos oito, tem estilo vigoroso, impulsivo, direto e muito objetivo que normalmente ao olhar do outro pode parecer grosseiro. Possuem faro refinado e estratégico para os negócios, passam confiança para equipe e costumam ser extremamente controladores. Adoram ambientes movimentados e situações adversas e testam a força de seus liderados, atribuindo-lhes grandes desafios.

Possui grande desejo de causar impacto para mostrar o seu poder.

Armadilhas da sua personalidade aplicadas na liderança: decisões impulsivas, dificuldade em “voltar atrás” e dar o braço a torcer (parecer fraco para os outros), dificuldade com autoridade de terceiros, tendência a quebrar regras, apego ao poder, sofrem retaliações dos outros, que veem suas atitudes como injustas. 

Case: A descrição do RH sobre o líder: “Excelente tecnicamente e agressivo no trato com o ser humano”. Este líder era visto como grosseiro, imperativo e impaciente com os liderados, fazendo valer apenas seu ponto de vista. Fazia acontecer deixando o time no chão, além de controlar tudo e todos o tempo todo.

O olhar para dentro: nosso primeiro trabalho, após a identificação do tipo, foi observar a expressão não verbal dos liderados e, como tarefa, pedir feedback para algumas pessoas próximas, dando-lhes liberdade para falarem o que pensavam, sem que ele, ao final, se justificasse. 

Ao perceber o impacto que ele causava nos demais e o quanto isso os afetava (o líder com essa personalidade não percebe o seu impacto nos outros), ele passou a sentir a necessidade de mostrar que ele não era seus comportamentos. 

A conexão emocional com o outro começou a ser estabelecida, uma escuta empática e a aceitação de outros pontos de vista e não apenas a “sua verdade” passaram a ser considerados, minimizando impulsos, abrindo espaço para a responsividade e não apenas para a reatividade.

Hipótese de líderes famosos como essa personalidade: Donald Trump, Martin Luther King e Bernardinho (do vôlei). 

O LÍDER TIPO NOVE: A MEDIAÇÃO

O indivíduo com este tipo de personalidade evita conflitos e possui grande dificuldade em dizer não, pois o valor central é a busca por harmonia, fundindo-se assim com tudo e todos ao seu redor. Ele consegue compreender todos os lados e, por isso, possui grande dificuldade em posicionar-se.

Em algum momento da vida, a criança tipo nove entendeu que não é importante perante os seus pais e/ou cuidadores, então direcionou (inconscientemente) sua atenção para prazeres momentâneos da vida, tornando-se indolente e inerte, ou seja, buscando comodidade física exagerada.

Trazendo para a liderança, os tipos nove, mobilizam equipes em prol do objetivo comum, tomam decisões pautados em consenso e buscam ambientes nos quais possam desenvolver colaboração e trabalho em equipe. É empático e altruísta, podendo ter dificuldades para se posicionar e tomar decisões rápidas, sem que haja tempo para recorrer a outros pontos de vista.

Muitas vezes diz um sim ou talvez (o que significa não, mas ele não consegue dizer). A inação é uma forma de externar o que chamamos de raiva passiva. Aliás, esse tipo de personalidade não reconhece a raiva, pois a narcotiza.

Armadilhas da sua personalidade aplicadas na liderança: não acreditar em si mesmo, dificuldade de assumir posições de comando e de exercer autoridade, armazenar insatisfações de modo pouco perceptível, até o dia em que abandona tudo, “ser levado” pelas situações profissionais, deixar de exercer um papel ativo na gestão de sua carreira.

Case: A descrição do RH sobre o líder: “alguém que, em reuniões não se posicionava e tinha dificuldades com as priorizações em sua área”. Aos olhos dos seus pares, era visto como alguém que “procrastinava quando em momentos de tensão e urgência, pois tinha a necessidade de ouvir seu time e demais líderes”.

O olhar para dentro: Nosso primeiro trabalho, após a identificação do tipo, foi observar o quanto ele trocava ações importantes para ele e até mesmo seu marketing pessoal, por coisas e situações mais confortáveis como forma de fugir do essencial.

Pegamos um exemplo da vida pessoal em que ele estava voltado sempre para os desejos da esposa e filhos, suas vontades não eram expostas para que pudesse incluir os desejos de todos e assim, falsamente achava que satisfazendo a todos, era feliz. 

Pedi para que começasse a se dar conta de quantas coisas na vida tinham ficado de lado para que pudesse entrar em contato com essa tristeza. Por trás da tristeza encontramos uma frustração enorme e a raiva contida nela. 

Perguntei: “quantas vezes na vida explodiu ou sentiu raiva? ” Ele se lembrou do dia em que o fim de um relacionamento de dez anos que o sufocava aconteceu em um ato explosivo sem que houvesse uma “DR” prévia com a sua namorada na época. 

Transferimos essa energia como mola propulsora para as questões organizacionais e a ação certa (que tanto falamos no Eneagrama) se manifestou de uma única vez. A energia e vitalidade acessada foram tão grandes, que interrompemos a sessão para que ele pudesse dar continuidade a um projeto parado há tempos e que era extremamente importante para ele e para a empresa.

O indivíduo do tipo nove quando em desenvolvimento começa a voltar-se para si e suas realizações, o que normalmente não acontece porque enaltece realizações alheias. Como consequência passa a fazer bom uso do seu tempo e energia.

Hipótese de líderes famosos como esse modelo de personalidade: Barack Obama e Dalai Lama.

O LÍDER TIPO UM: O PERFECCIONISMO

O indivíduo com este tipo de personalidade foca sua atenção no que está “errado” e precisa ser concertado. A raiva é reprimida e canalizada quando alguém quebra as regras ou faz algo “errado”. Há controle exagerado e mostra-se detalhista com tudo ao seu redor. O foco é na tarefa.

Em algum momento da vida, a criança tipo um foi criticada, perdeu o prazer da infância, bem como o direito de exercê-la em sua plenitude e passou a “fazer correto para ser aceita”.

Trazendo para a liderança, os tipos um costumam ser dedicados, comprometidos e extremamente responsáveis. Trabalham excessivamente porque vão no detalhe do detalhe, exercendo controle exacerbado com a motivação de eliminar possíveis erros. Qualidade é imprescindível. 

Esse excesso traz para a equipe a sensação de que o líder não confia nos liderados, pois o nível de cobrança dele com ele mesmo é altíssimo e acaba fazendo o mesmo com os demais, passando a impressão de que as pessoas nunca são boas o suficiente.

Armadilhas da sua personalidade aplicadas na liderança: ressentimento e sensação de não adaptação a diferentes ambientes, pessoas e correntes de pensamentos, seu sentimento de culpa por erros pode levar a uma forte autopunição, tendência a buscar papéis mais técnicos e menos de liderança e ressentimento quando não é promovido. 

Case: a descrição do RH sobre o líder: necessidade de delegar o operacional para o time, o que para ele era um esforço fora do comum, uma vez que conhecia a empresa como a palma das suas mãos. Difícil confiar que as pessoas entregariam as informações “corretas” e precisas, as quais ele necessitava. O que ocorria era um enorme down grade em sua área.

O olhar para dentro: o grande prazer de se trabalhar com pessoas com esse estilo de personalidade é que na contramão dos demais tipos, ele se desenvolve se “desconcertando”. Começamos o trabalho ajudando-o a acessar seu lado mais criativo, com elementos da infância, resgatando prazeres que lhe foram tirados e devolvendo-os na fase adulta. 

Foi percebido em atividades cotidianas o quanto ele precisa do lazer e do ócio para atingir relaxamento e, como consequência, ser conduzido a estágios emocionais leves e descontraídos. Desta forma, o nível de exigência cai e a fluidez acontece.

O lazer com os filhos menores foram fonte de descontração que resgataram sua criança interior. O banho de mangueira que ele não tomou com os primos quando pequeno, por impedimento da mãe, foi realizado na fase adulta com seus filhos como tarefa de coaching, com direito a comer brigadeiro na grama com o dedo, algo jamais permitido em sua casa.

Trouxemos esse relaxamento para o contexto organizacional. Como tarefa, aos poucos, ele ia delegando o que ficava confortável e ao invés de fazer, passou a treinar e desenvolver a equipe, podendo assim, ficar livre para ver o todo usando o seu potencial criativo.

O tipo um, em desenvolvimento, começa a reconhecer o que está bom e a aceitar que tudo está perfeitamente imperfeito, como de fato é o mundo.

Hipótese de líderes famosos como esse modelo de personalidade: Mahatma Gandhi e Margareth Thatcher.

Como vimos, nós não somos a nossa personalidade. Mas para mudarmos o único caminho é o olhar para dentro. Caso contrário, ficaremos presos a ela.

Assim, podemos evoluir em nosso nível de consciência para ver e valorizar nossas forças. A partir daí, podemos buscar novas opções para as limitações impostas por nós mesmos no decorrer da vida. 

Meu convite é que você se observe e perceba se uma dessas personalidades faz sentido para você ou alguém do seu entorno. 

No próximo artigo falarei sobre a tríade emocional falando dos tipos dois, três e quatro.

Sobre Isabel Soares:

Isabel SoaresCoach, facilitadora e consultora especialista em desenvolvimento humano e organizacional. Conhecedora profunda de Eneagrama e outras  metodologias tais como “Liderança de Alta Performance” de Patrick Lencioni.

Isabel é consultora parceira da Evolução Humana Consultoria em projetos de facilitação de desenvolvimento de lideranças.  Muito obrigado Isabel, pela generosidade de compartilhar artio seu artigo aqui em nosso BLOG.

A Evolução Humana trabalha a favor da “Expansão da Consciência”. 
Essa é nossa razão de existir!

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