Mundo novo e autoconhecimento: os líderes mentais (artigo 4)

Mundo novo e autoconhecimento: os líderes mentais (artigo 4)

<< artigo de Isabel Soares>> consultora parceira da Evolução Humana Consultoria >> 

Diante das inúmeras transformações pelas quais estamos passando rumo ao mundo novo, dedicar um tempo ao equilíbrio emocional é essencial.

Sem responder à pergunta “quem sou eu? ” (olhar para dentro), não conseguiremos entender quais são as nossas forças interiores e limitações (pontos de desenvolvimento) da nossa personalidade. 

No processo de autoconhecimento, o primeiro passo é compreendermos que a nossa personalidade é uma estratégia de sobrevivência escolhida por nós – na primeira infância – para lidar com o mundo a nossa volta. 

O segundo passo é reconhecer que nós não somos a nossa personalidade. Parece uma tarefa fácil, mas não é. Nos apegamos a personalidade que escolhemos para nos mostrarmos para o mundo e acreditamos que ela nos define como seres humanos. 

Quantas vezes você não escutou alguém falando com orgulho: “eu tenho uma personalidade forte e esta é minha essência e é assim que eu sou”. Veremos que essa crença é um ledo engano e pode ser quebrada.

Todos nós temos três centros de inteligência (instintivo, emocional e mental), mas nos desenvolvemos primordialmente em um deles. 

As organizações utilizam várias ferramentas de autoconhecimento para mapear a personalidade de seus líderes e traçar um plano de desenvolvimento para eles, como o DISC (avaliação comportamental) ou MBTI (instrumento que identifica preferências pessoais).

Para lidar com o tema do autodesenvolvimento na liderança utilizo o Eneagrama, uma sabedoria milenar que nos apresenta um mapa de desenvolvimento humano que descreve nove tipos de personalidades divididos em três tríades: tríade instintiva (tipos 8, 9 e 1), tríade emocional (tipos 2, 3 e 4) e a tríade mental (tipos 5, 6 e 7). 

Apesar de o nosso tipo de personalidade ser o mesmo para a vida toda, através do Eneagrama podemos expandir o nível de consciência, potencializando forças e interrompendo mecanismos nocivos e automáticos que operam em nós de forma inconsciente. 

Venho utilizando o Eneagrama há anos nas organizações (em workshops e individualmente em processos de coaching executivo). Posso constatar a diferença que ele faz para os líderes, assim como fez em todas as áreas da minha vida. Meu trabalho é ajudá-los a acessar sua motivação central e, a partir daí, alinhar o pensar, sentir e agir.

No artigo anterior abordei a tríade emocional (tipos 2, 3 e 4), neste vou examinar os tipos da tríade mental, cuja emoção subjacente é o medo. Como vocês verão, cada um dos três tipos irá lidar com o medo de forma completamente diferente. Apesar disso, eles têm em comum a busca pela segurança por meio da adoção de estratégias e convicções intermináveis. 

O líder tipo cinco: a análise

O indivíduo com este tipo de personalidade busca o conhecimento para obter autonomia e independência, além de ter necessidade constante de recarregar energia por meio da privacidade. Em algum momento da vida, a criança tipo cinco passou a acreditar que o mundo demanda demais e dá pouco em troca, passando então, a economizar seus recursos, energia e tempo, evitando demandar e ser demandado. O tipo cinco gosta de simplicidade e adota a filosofia de vida de que “menos é mais. ”

Trazendo para a liderança, os tipos cinco são planejadores, administram recursos e trazem previsibilidade para os resultados. São excelentes gestores do tempo necessário para a realização de tarefas e têm habilidade na busca de dados, fatos e conhecimentos diversos que agregam valor ao negócio. Fazem conexão precisa entre as diferentes áreas da empresa, além de serem excelentes gestores de crise, pois conseguem se desconectar emocionalmente dos problemas o que traz facilidade na busca de soluções. 

Armadilhas da sua personalidade aplicadas na liderança: pode priorizar papéis técnicos e/ou de bastidores, prefere cargo de menor visibilidade e nos quais possa ter maior privacidade, grande tendência de especializar-se excessivamente em um campo de conhecimento pequeno e restrito, correndo o risco de ser menos ousado em sua carreira, conformando-se com pouco (“viver uma vida simples e sem cobrança”). 

Case: A descrição do RH sobre o líder: Este líder era visto como alguém muito respeitado, com excelência técnica e planejamento impecável, além de ser referência em conhecimento na organização. Seu desafio era melhorar a comunicação, ser mais flexível e disponível para o time.

O olhar para dentro: nosso primeiro trabalho, após a identificação do tipo, foi perceber o excesso de energia concentrada na cabeça, o alto nível de isolamento das pessoas, mantendo-se, na maior parte do tempo “conversando” com suas ideias e economizando energia.

Nossa tarefa foi distribuir esse excesso de energia mental para o corpo, estimulando a parte motora por meio de atividades físicas de impacto como a corrida e trilhas em meio a natureza. Isso fez com que o indivíduo saísse do mundo das ideias e se entregasse com leveza ao mundo das experiências, sentindo o corpo e se conectando no momento presente, trazendo para fora sua criatividade e vontade de dividir ideias com as pessoas, tornando-o assim, mais disponível.

No processo de desenvolvimento, o líder tipo cinco passa a comunicar-se sem economia, a se jogar mais nas experiências e vivenciar o prazer sem culpa ou retração, além de conectar-se emocionalmente com as pessoas.

Hipótese de líderes famosos com essa personalidade: Bill Gates e Mark Zuckerberg.

O líder tipo seis: a precaução

O indivíduo com este tipo de personalidade é conhecido por prever riscos, ser leal, criativo na solução de problemas e pensamento coletivo. Lutam por causas nobres, são questionadores natos e conseguem ser generalistas e ao mesmo tempo muito detalhistas. Existem duas variáveis deste tipo: uma que no medo foge e o outro que no medo, ataca.

Em algum momento da vida, a criança tipo seis passou a acreditar que o mundo é um lugar perigoso e é preciso se prevenir contra tudo de ruim que possa acontecer.

Trazendo para a liderança, os tipos seis buscam por excelência no planejamento, antecipação ao problema, liderança servidora e formação coesa de equipes, trazendo clima de amizade e companheirismo.

Armadilhas da sua personalidade aplicadas na liderança: pode focar excessivamente nos problemas e passar a impressão de pessimismo aos demais, dificuldade em assumir sua própria autoridade e em confiar nas pessoas por achar que todos possuem intenções ocultas, projeção excessiva de cenários ruins, trazendo enorme desgaste de energia, dificuldade de exposição e ansiedade perante a possibilidade de sucesso.

Case: A descrição do RH sobre o líder: um profissional recentemente promovido que tinha alta competência técnica, visão sistêmica, inovador e muito comprometido e leal aos valores da organização. Sabia o que estava fazendo, mas precisava o tempo todo de validações externas, passando uma sensação de insegurança. Também era percebido o receio de exposição, em especial ao falar com profissionais da alta liderança.

O olhar para dentro: Nosso primeiro trabalho, após a identificação do tipo, foi observar o excesso de projeções, em especial de cenários negativos, o que gerava a incerteza de saber se estava no caminho certo. Além disso se deu conta da procrastinação devido a busca excessiva de informações como forma de prevenir risco. Evitava exposição com líderes e liderados pelo receio de ser “atacado”.

Um caminho essencial de desenvolvimento do líder tipo seis foi baixar a ansiedade, fazendo trabalhos de respiração, pois a mesma geralmente era ofegante e centrada no peito. A meditação entrou como forma de distribuir o excesso de energia mental para o corpo (barriga), trazendo tranquilidade e limite para os cenários negativos projetados para que pudesse ficar apenas com fatos. O fazer automaticamente trouxe segurança, sobriedade e autoridade para o líder que passou a considerar perspectivas mais positivas. Uma das tarefas foi listar as coisas boas que tinha na empresa e em sua vida pessoal.

O indivíduo do tipo seis quando em desenvolvimento se conecta com a coragem (cor = coração e agem = agir). Passa a se orientar com autonomia e confiança em si, portanto, naturalmente passa a assumir sua posição perante os demais.

Hipótese de líderes famosos como esse modelo de personalidade: Muricy Ramalho e Luiz Felipe Scolari.

O líder tipo sete: o prazer

O indivíduo com este tipo de personalidade busca o prazer como forma de não sentir o medo. Racionaliza as emoções e evita contato com o sofrimento, se envolvendo em diversas atividades, ideias e aventuras, buscando múltiplas opções como forma de saciar sua eterna fome por novas experiências.

Em algum momento da vida, a criança tipo sete decidiu fugir do medo e do sofrimento, concentrando-se em experiências agradáveis, passando a ver o mundo como um lugar repleto de aventuras e novas possibilidades.

Trazendo para a liderança, os tipos sete inspiram novas conquistas, são extremamente leves, criativos e visionários. Conseguem estimular as pessoas positivamente, são inovadores e versáteis, além de serem persuasivos e otimistas de carteirinha.

Armadilhas da sua personalidade aplicadas na liderança: não ter compromisso com uma carreira (“minha vida é minha carreira”), ter mais de uma profissão e mais de uma formação, não se aprofundando em nenhuma, priorizar apenas movimentos laterais na carreira, querer variar a profissão, podendo abandonar projetos no meio.

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Case: a descrição do RH sobre o líder: profissional criativo, repleto de ideias e fazia a ponte entre cliente externo e interno de forma excepcional. Precisava finalizar projetos com o mesmo entusiasmo em que iniciava, pois deixava a equipe frustrada por não fazer acompanhamentos no durante. Sua motivação estava sempre na novidade.

O olhar para dentro: após a identificação do tipo, o primeiro passo foi observar a racionalização como forma de evitar contato com as emoções e a busca pelo excesso de experiências, que traz euforia exagerada, o que impedia o coachee de relacionar-se com ele mesmo de forma sóbria e profunda.

Como tarefa, passamos a trabalhar o recolhimento e acordamos a seguinte tarefa: o coachee viajou sozinho no final de semana para um local pacato, sem música, televisão e saída a locais públicos, o que causou um enorme desconforto ao mesmo tempo em que percebeu seus pensamentos se assentando. Isso significou pegar toda a energia que dispersa para o externo o tempo todo e jogar para dentro. Isso o levou a começar a entrar em contato com dores, medos e tantas outras coisas que são parte da vida e devem ser vividas e encaradas até o fim. Isso contribuiu com que o profissional retomasse e concluísse um projeto há meses parado, tornando-se próximo dos liderados.

O tipo sete, em desenvolvimento torna-se mais sereno, focado e disposto a encarar situações e projetos do início ao fim. Se conecta com as pessoas ao invés de ser autocentrado na maior parte do tempo.

Hipótese de líderes famosos com esse modelo de personalidade: Jô Soares e Steven Spielberg.

Como vimos nas três tríades desta série, nós não somos a nossa personalidade. Mas para mudarmos, o único caminho é o olhar para dentro. Só assim poderemos enxergar a estratégia de sobrevivência que adotamos inconscientemente para lidar com três emoções subjacentes inerentes a todos nós (a raiva, a tristeza e o medo). 

Caso contrário, ficaremos presos a nossa personalidade e veremos o mundo como nós somos e não como ele de fato é. 

A tarefa é difícil porque mesmo em desenvolvimento sempre seremos levados a ver o mundo através da nossa limitadora percepção. O resultado será transformador porque ficaremos vigilantes as armadilhas de sobrevivência da nossa personalidade e teremos a consciência da nossa dor e a dor dos outros que estão ao nosso redor.

Sobre Isabel Soares:

Isabel SoaresCoach, facilitadora e consultora especialista em desenvolvimento humano e organizacional. Conhecedora profunda de Eneagrama e outras  metodologias tais como “Liderança de Alta Performance” de Patrick Lencioni.

Isabel é consultora parceira da Evolução Humana Consultoria em projetos de facilitação de desenvolvimento de lideranças.  Muito obrigado Isabel, pela generosidade de compartilhar artigo seu artigo aqui em nosso BLOG.

A Evolução Humana trabalha a favor da “Expansão da Consciência”. 
Essa é nossa razão de existir!

 

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